30 de agosto de 2005

Piqueniques à Portuguesa

Acredito ser de elevado interesse para a comunidade um retrato aprofundado de um dos costumes mais antigos e tradicionais da sociedade portuguesa. Trata-se de um êxodo caseiro, frequentemente verificado no Verão em grande escala e que constitui um dos rituais mais típicos do nosso país. Passemos entao à descrição deste megaprocesso de transporte de pessoas, comida e objectos como forma de entretenimento familiar: o "piquenique à Portuguesa":

1) Local
Não é muito difícil a escolha. Qualquer lugar espaçoso, com erva e uma ou duas árvores para criar bom ambiente. Uma das características principais é ser afastado do local de residência dos indivíduos envolvidos (assim sempre podem dizer que visitaram uma zona qualquer que se encontra a uma ou duas horas de viagem).

2) Comunidade envolvida
São sempre famílias numerosas. Entre bisavós, avós , filhos, tios, sobrinhos, netos, bisnetos, a média de indivíduos envolvidos nesta actividade ronda, em média, as 30 pessoas.

3) Horário
É uma actividade que preenche todo o dia. É necessário acordar de madrugada, inicia-se uma viagem de aproximadamente duas horas e permanece-se no local até ao fim do dia. É frequente assistir-se ao nascer e pôr do sol no local em questão, ainda que isso envolva algum sacrifício e sofrimento por parte dos intervenientes. É sempre bonito assistir a esses momentos.

4) Preparação no local

4.1) Comida:
Inicia-se a montagem dos grelhadores a carvão e dos fogões a gás, e respectivas botijas, para posterior utlização. A carne, as sardinhas, feijão, batatas, arroz permanecem, por cozinhar, no interior do veículo até à hora do almoço. Retiram-se os garrafões de vinho e as grades de cerveja que vão sendo consumidos ao longo de todo o dia.
4.2) Conforto:
Descarregam-se as cadeiras e mesas da Ford Transit disponibilizada para esse fim. Montam-se as camas de rede entre as árvores. Vai ser passado o dia no local, por isso é essencial a montagem de uma latrina improvisada, escondida, na medida do possível, por trás de um qualquer arbusto das redondezas e que consiste simplesmente num local demarcado para a acumulação industrial de dejectos. Naturalmente que o local poderá emanar algum odor para a zona da alimentação.

5) Hora do almoço
Após viagem e preparação do local chega a hora do almoço. É necessário preparar e confeccionar os alimentos. Dividem-se as tarefas entre as mulheres, enquanto os homens permanecem sentados nas cadeiras em exibições extraordinárias das suas barrigas de cerveja. Algumas descascam as batatas, outras preparam a carne e peixe. Os homens acabam por ser os responsáveis por colocar os pratos, talheres e copos de plástico em cima das mesas enquanto os coçam esporadicamente. Não demora muito até as três dezenas de idivíduos se estarem comodamente a refastelar com os bifes grelhados ou as sardinhas acompanhadas por batatas cozidas e arroz de feijão acabadinhos de fazer.

6) Entretenimento
Findo o almoço, é necessário preencher o tempo a todo o custo. Os mais velhos, com os movimentos corporais limitados, não abandonam em nenhum momento as cadeiras que ocuparam de manhã e passam a tarde a jogar cartas, mais especificamente à sueca. Frequentemente as acusações de batota resultam em cenas de pancadaria, naturalmente em slow motion e com golpes pouco vigorosos, devido à condição física dos indivíduos. Acaba tudo por ser resolvido devido aos laços de família que os unem.
A canalha passa o dia a jogar à bola. Não é preciso nada para além de uma bola para que eles se entretenham durante horas a fio.
O resto do grupo diverte-se entre discussões de futebol entre os homens, sempre de cerveja na mão, e discussões sobre novelas brasileiras entre as mulheres. Ambos os sexos partilham do gosto pelo jogo da malha.

7) Arrumação e Partida
É agora necessário proceder à arrumação do local. Enquanto as mulheres lavam as panelas com água e sabão, os homens recolhem a loiça suja e o resto do lixo que não tenha caído ao chão. É tudo colocado dentro de sacos de lixo que são acondicionados devidamente junto da árvore do local. Caso algum carro de recolha passe por aquele pedaço de mata isolado, não há maneira de não ver aqueles sacos de lixo. Sentido de responsabilidade acima de tudo.
Amontoa-se a tralha dentro da carrinha. Contam-se os putos e arranca-se.


Assim se passa um dia agradável em família e simultaneamente se contribui para a manutenção dos costumes e tradições do nosso país. Experimentem. É certo que vão gostar.

7 comentários:

fake disse...

pelo que se pode apurar em conversa de IRC, o tamanho deste post assemelha-se a um "caralho". Vá-se lá saber de quem agora..

André Silva disse...

Eu não sei de quem é mas... (olha para baixo)
... desconfio.

zeto disse...

axo que fui chamado a conversa! (:

Sou Eu disse...

Post demasiado grande para ser lido...vá, os curtinhos são mais fáceis de comentar! Nisso é que o zeto é bom :P

Pedro Couto disse...

sinto-me indignado.

zeto disse...

sou o maior! :)

viva eu!

já ganhei o meu dia.

Froostrado disse...

Esqueceste-te da música que dá sempre na estereofonia da hiace, da transit ou da trafic... Sempre a Ágata, o Luís Filipe Reis e o Nel Monteiro a dar aquele toque de classe ao piquenique.

 
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